sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Aécio Neves

Há dois dias os jornais estão cheios de idas e vindas sobre a possibilidade de Aécio Neves ser candidato a vice-presidente na chapa de José Serra. Um diz que ele aceita, Aécio nega, depois um de seus assessores vaza que ele considera a possibilidade dependendo das chances de Serra vencer.

Eu não sou tucano. Estou claramente à direita do PSDB e tenho severas críticas ao conjunto ideológico que norteia o partido. Mas tenho algo em comum com o PSDB: sou de oposição ao governo Lula. Ninguém que lê este blog duvida em quem vou votar nas próximas eleições: no candidato do PSDB contra o candidato do PT.

E por isso mesmo está na hora de Aécio Neves, uma liderança política absolutamente fundamental no xadrez eleitoral, decidir que projeto de poder é o dele.

O projeto de poder de Aécio Neves tem que ser derrotar o PT. Tem que ser o retorno do seu partido à presidência da República. Aécio é de oposição. Se ele é de oposição - e ele é, certo? -, ele, como seu partido, como os demais partidos de oposição, tem um projeto de Brasil diferente daquele do PT. Ele acredita que pode fazer melhor pelo Brasil do que o PT. Se ele está no PSDB, suponho que ele acredite que seu partido tem maior capacidade de fazer o melhor pelo Brasil.

Se é assim, então Aécio quer o PSDB de volta à presidência e tem que trabalhar com tudo pra isso. Ele tem que parar de encarar as eleições como uma questão pessoal. Não acho que Aécio tenha que "se sacrificar" ou qualquer bobagem do tipo: duvido que exista qualquer posição em que Aécio possa se tornar maior do que a de candidato a vice-presidente. Está na hora de ele, um dos melhores quadros que atuam hoje na política brasileira, ganhar cara nacional. Está na hora de ele tratar de temas nacionais. No limite, uma derrota do PSDB com Aécio na chapa tornaria Aécio a principal cara da oposição em um governo petista a partir de 2011.

Eu quero acreditar que Aécio tem um projeto de Brasil. E acho que está na hora de ele entender que esse projeto precisa dele. Precisa dele na chapa com José Serra.

A alternativa é termos certeza que o único projeto de Aécio Neves é Aécio Neves.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O terrorismo eleitoral atravessa mais limites

Governo faz ameaça eleitoral ao recadastrar Bolsa Família
É a impressionante manchete do Globo de hoje.

Esse, meus caros, é o espírito do PT. É contra isso que o PSDB vai ter que se bater se quiser eleger José Serra presidente. E no entanto Aécio Neves está no Estadão em uma entrevista criticando seu partido.

O PSDB não sabe o que faz. E se essa é a oposição que temos, diante do que se lê abaixo, temos um grande problema.

*
Norma do governo distribuída a prefeitos diz que próximo gestor pode mudar regras do Bolsa Família.

Por Catarina Alencastro

Um texto editado pelo Ministério do Desenvolvimento Social para orientar o recadastramento de beneficiários do Bolsa Família afirma que o gestor que assumir o comando do programa federal no próximo governo poderá alterar suas regras. O alerta faz parte da instrução operacional número 34, editada no dia 23 de dezembro do ano passado, e que será repassada aos prefeitos, responsáveis pela atualização dos dados do cadastro do Bolsa Família.

O documento explica que a validade do benefício está garantida por três anos para quem já atualizou seus dados em 2008 e 2009. Embora não esteja expresso, o texto dá a entender que o mesmo deve valer para quem se recadastrar em 2010. Mas, segundo a advertência do ministério, a partir de 2011, o prazo de validade do benefício não está garantido.

Segundo a instrução operacional, hoje a validade do benefício “depende do ano em que houve a última atualização cadastral”. “Cadastros atualizados em 2008 terão a validade do benefício firmada em 31/10/2011; cadastros atualizados em 2009, 31/10/2012. Para os anos de 2011 e 2012, no entanto, a fixação da data de validade do benefício estará sujeita a alterações segundo novas diretrizes que sejam estabelecidas pela nova administração que assumir o Bolsa Família em janeiro de 2011″, diz o texto.

Para o especialista em Direito administrativo, Damásio de Jesus, a norma traz insegurança jurídica e pode ser entendida pelos beneficiários como uma ameaça.

- Estamos diante de uma quase total insegurança jurídica. Isso é terrorismo. A lei é isto aqui, mas ela pode mudar a qualquer momento. Parece-me que o governo está tentando antecipar circunstâncias que ele supõe que venha a acontecer - disse ele. - Não é possível que a lei diga alguma coisa hoje e, ao mesmo tempo, diga que isso pode ser mudado. Parece-me muito estranho que o governo faça isso.

O professor de Direito administrativo da Uerj, Gustavo Binenbojm, afirma que, do ponto de vista da responsabilidade fiscal, a norma está certa. Ele vê, no entanto, margem para interpretações político-eleitorais.

- A medida tem um caráter ambíguo. Ainda que ela seja suscetível a uma explicação eleitoral, juridicamente é correta - diz.

Segundo ele, o governo passa, com a norma, a mensagem de que o benefício está garantido somente enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou seus candidatos, estiverem no poder:

- A mensagem política que o governo quer passar é que, se o governo Lula continuar, está tudo garantido. Se não, vocês (beneficiários do programa) vão ter que se acertar com o governo de oposição.

Secretária admite falta de cuidado
A secretária nacional de Renda de Cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social, Lúcia Modesto, nega que a intenção da regra seja espalhar terror entre os beneficiários. Mas ela admite que o texto dá margem para diferentes interpretações:

- Este texto vem suscitando diversas interpretações que vão para além do que, de fato, está escrito nele. Talvez a gente não tenha tido o cuidado (necessário) com a linguagem.

Segundo ela, a instrução operacional tem como finalidade orientar os gestores do programa nos municípios. Lúcia Modesto diz que o documento foi discutido em uma teleconferência com gestores municipais e, na ocasião, não houve, por parte deles, dúvidas sobre o teor meramente funcional da mensagem:

- A instrução não tem valor normativo, é uma instrução operacional. É um texto técnico que ajuda os municípios a se organizarem em um ano que é mais curto que os outros.

A instrução foi editada para ajudar os municípios na atualização do cadastro único de integrantes do Bolsa Família. Desde 2008, quem recebe auxílio pode ficar dois anos sem atualizar suas informações sem correr o risco de perder o auxílio. A partir daí, caso não o faça, terá o repasse bloqueado e, após três meses, será desligado do programa.

A instrução operacional explica que está em vigor um novo conceito de validade do benefício que assegura à família continuar recebendo o dinheiro do governo federal, mesmo que o rendimento per capita seja superior a R$ 140, teto permitido no programa. O argumento é que as famílias podem eventualmente conseguir uma renda extra, como um emprego temporário. Com a renda maior corriam o risco de perder o benefício. Mas, há alguns anos, o entendimento do ministério é o de que essa renda eventual não pode prejudicar a família que ainda deve ser mantida no programa.

A instrução operacional estabelece ainda uma novidade para o cadastramento. A partir deste ano, cada beneficiário terá um mês específico para fazer a revisão cadastral. O mês depende dos últimos algarismos do Número de Identificação Social (NIS) do responsável pela unidade familiar.

Mais de 700 mil cancelamentos

Nesta terça, o ministério divulgou que 709.904 famílias terão o recebimento do Bolsa Família cancelado a partir do dia 11 deste mês. O motivo é que o cadastramento delas não foi atualizado nos últimos dois anos. O estado que mais terá famílias retiradas do programa é São Paulo, com 133.992 cancelamentos. Em segundo lugar vem a Bahia, com 67.986. O Rio terá 47.648 famílias retiradas do Bolsa Família ainda este mês.

As famílias poderão recorrer do cancelamento e voltar a integrar o programa. A decisão é da prefeitura da cidade onde moram, que é a responsável pela gestão do benefício. Ao todo, 4.112.315 de famílias já foram desligadas do programa. A maioria (2.237.587) por terem renda familiar superior à exigida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma coluna brilhante de Luiz Felipe Pondé. Ou: Um (meu) humanismo

Cheguei ontem de viagem, e não li muita coisa dos jornais. Hoje, um amigo chamou minha atenção para a coluna de Luiz Felipe Pondé - cujos textos são em geral muito bons - publicada na Folha dessa segunda.

É um texto simplesmente fabuloso, que diz muito sobre mim e sobre o que penso. A propósito: o título e o texto fazem referência ao livro O Homem Comum, do excelente escritor americano Philip Roth. Considerem essa uma dica: esse é um livro maravilhoso.

Segue o texto. Destaquei um trecho que é semelhante a muitas coisas já ditas aqui, inclusive uma que rendeu polêmica há pouco tempo. Dirão que o que vai abaixo é pessimista. Talvez seja. Mas é também um humanismo. É também meu humanismo, se Pondé me permite a companhia.

O homem comum
COMO DIZIA o filósofo alemão Franz Rosenzweig (1886 -1929): "Hoje só me interessa o que as pessoas comuns me perguntam". Como ele, não me interessa mais me esconder atrás de alguma teoria pra negar minha insegurança. Segundo o crítico literário canadense Northop Frye (século 20), muitos acadêmicos são pessoas inseguras que se escondem atrás de teorias porque não são capazes de falar em primeira pessoa. Sendo medrosos e pouco criativos, morremos de medo da opinião dos pares. Ao final, o que importa é o corporativismo e o aniquilamento dos desafetos.

Sei que o leitor irritado pensa que sou um elitista. Reconheço minha culpa, minha máxima culpa: tenho dado razão pra que você pense assim. Mas, como diz um personagem interpretado pelo ator Harrison Ford no filme "Divisão de Homicídios", quando é chamado por um subalterno de "sir": "Don't call me sir, I work for living" (não me chame de "sir", eu trabalho pra sobreviver).

Esse é o meu caso, sou um nordestino, entre tantos, que veio pra São Paulo e aqui me virei como pude, fazendo contas todo mês e lidando com medos e crises repetidas de baixa autoestima ao longo do caminho. Como todo mortal, faço o que posso diante da opacidade do mundo e da mentira geral que permeia a ordem das coisas.

Mas não sou um pessimista. Existe a beleza e a generosidade no mundo, elas se misturam a tudo mais, como o ouro se mistura ao lixo, à lama e à violência do garimpo. O próprio fato de que hoje estou aqui falando com você é a prova cabal de que não posso negar a felicidade e o sucesso que existem como possibilidade na vida dos homens comuns.

O que a leitora indignada não entende é que não compactuo com a repressão que hoje tende a destruir o pensamento livre em nome dos ofendidos. Mas não pense que, por isso, eu acredite que esteja "construindo um mundo melhor", porque não compactuo com esta ditadura dos ofendidos. Não acredito num mundo melhor. Como diz meu filho médico de 26 anos: "O sofrimento é uma constante, quando sai de um lugar, aparece em outro". O fato de eu não compactuar com a mentira do bom-mocismo é, em mim, uma condição quase fisiológica, sai como um grito de horror incontrolável. Não é uma virtude, é um vício. É uma dor que pede alívio imediato.

Quer exemplos de máximas que me fazem urrar de dor? "Todos os homens são iguais e legais", "não diga coisas que façam as pessoas desacreditarem em si mesmas", "o mal é uma construção social e não uma constante da natureza humana", "não existem culturas melhores do que outras", "jornalistas de respeito não falam coisas feias em seus artigos", "as mulheres não estão solitárias em suas carreiras profissionais bem-sucedidas", "os homens modernos não sentem que são manipulados pelas mulheres, agora emancipadas, mas que continuem a fazer chantagens emocionais como suas avós faziam pra submetê-los a sua vontade dominadora", "a natureza é uma mãe".

O que falta em mim é o medo que está por trás da unanimidade bem comportada. Não tenho medo que usem contra mim clichês bobos como machista, elitista, fascista, racista. Não sou nada disso, como todo brasileiro, sou uma mistura de europeu, índio e negro. Como todo mundo, tenho alguns preconceitos e quem diz que não os têm são os verdadeiros preconceituosos.

Vou continuar a falar coisas que a ditadura dos ofendidos detesta e eles vão continuar a tentar destruir a liberdade de pensamento, mesmo que se digam defensores da democracia. Se existe alguma democracia defendida pela ditadura dos ofendidos é a democracia da mediocridade, do silêncio e do medo.

Quando falo em pessoas comuns, penso no homem comum do livro "O Homem Comum", de Philip Roth. Penso naquele homem ou naquela mulher que, quando vai ao cemitério e vê um caixão baixando ao solo, inevitavelmente sente um frio na barriga e um desespero na alma. Penso naquela mulher que se vê abandonada depois de anos de dedicação a um homem só porque chegou aos 40 anos e porque não consegue mais sorrir tão fácil. Penso naquele homem que sabe que sua vida está pendurada por uma corda que aperta seu pescoço cada vez que os juros do seu cartão de crédito sobem. Penso naquele idoso que não vê mais seus filhos porque envelheceu pobre.

Penso, enfim, em você, aí sozinho, tomando café da manhã, sonhando com um amor que não existe, com uma família perdida e com um sucesso efêmero como o vento. Imerso na solidão de todos nós.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Salinger est mortus

Morreu J. D. Salinger, autor de "O apanhador no campo de centeio", o clássico que, dizem, "inventou" a literatura para jovens que é um grande retrato da época em que foi escrito.

Adoro o livro, o único que Chapman escreveu que valha a pena ler, até onde sei.

Chapman vivia em reclusão absoluta desde 1980. A imprensa vai tentar explicar as razões.

Que a terra lhe seja leve. Sua obra sobreviverá.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Épico

Epigrama nº 7
Cecília Meireles

A tua raça de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura,
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Invictus

Uma dica cultural: estreia na próxima sexta-feira nos cinemas o novo filme do em geral excelente Clint Eastwood, Invictus. O filme conta, através de um episódio muito particular, a história da escolha de Nelson Mandela por impedir que a África do Sul se tornasse um projeto de supremacia negra: ele a queria simplesmente uma nação.

Em 1995, Mandela era há um ano presidente. E decidiu transformar a seleção nacional de rúgbi, um esporte de brancos, em símbolo nacional. Seu capitão, François Piennar, foi convocado por Mandela a tornar a seleção, então em péssima fase, em uma seleção vitoriosa. E Mandela seguiu apoiando a seleção em qualquer situação, como algo que representava o país como um todo, não parte dele apenas. Usou-a para estender a mão aos brancos amedrontados pela mudança e dizer: este Estado é de todos. A democracia não é só para brancos, mas também não é só para negros. Ela é para todos.

O filme conta essa história de modo magnífico. Morgan Freeman, como Mandela, oferece uma atuação que tem chances de lhe render o Oscar de melhor ator - muito merecidamente. Ele está espetacular. Matt Damon, um dos meus atores prediletos, que, diga-se, está cada dia melhor, oferece uma atuação inteligente e tocante como Piennar.

Essa é a história de como a África do Sul, país que certamente estará nos noticiários durante todo o ano em função da Copa, conseguiu escapar à armadilha do sectarismo que destruiu tantos países da África.

Assistam a Invictus, pelo bem da inteligência. É um excelente filme, e um documento histórico fabuloso.

China, Google, futuro e passado

Sempre que penso em globalização, eu penso no colunista Thomas Friedman, do New York Times. Ele é talvez o mais brilhante e realista entusiasta do processo: sem nunca lhe atribuir méritos que ele não tem, mas também sem os preconceitos de várias origens que lhe são peculiares.

Ele é autor de um livro, O mundo é plano, que é uma grande e espetacular reportagem sobre esse fenômeno. E ele escreveu, em sua coluna no jornal na última quarta-feira, que o confronto entre o Partido Comunista Chinês e o Google é um confronto entre o PCC e a parte mais moderna da China.

Vamos deixar claro: um país do tamanho da China é naturalmente uma potência. Estranho é que tenha sido por tanto tempo um dos cantos mais pobres da Terra. Basta que a China tenha um quinto da renda per capita americana para se tornar a maior economia do planeta, porque tem cinco vezes mais habitantes. Mas os americanos continuariam sendo cinco vezes mais ricos que os chineses.

O PCC detesta a liberdade que o Google oferece. Conseguiu por um tempo censurar o acesso dos chineses a informações de conteúdos políticos (com, diga-se, a nojenta complacência da empresa). Mas as coisas saíram do controle. Manter a internet e os internautas domesticados e sob controle não é simples. Ninguém conseguiu fazer isso sem restringir o próprio acesso à rede.

E então chegamos ao ponto em que a interpretação de Friedman para a globalização se cruza com os eventos dessa semana: os EUA são a maior potência do mundo não só porque têm a maior economia, mas porque têm a dianteira tecnológica. A China não vai ditar os rumos da economia mundial, como quer e como esperam ardentemente os anti-americanos de todos os matizes, antes de conseguir competir com os EUA na fronteira tecnológica. E o fato é: um país que controla a informação e entra em confronto com o mais poderoso, simples e assombroso resultado da teconologia, esse buscador chamado "Google", está longe demais de criar seus próprios Gates e Jobs.

As redes que levam ao fluxo de informações são fundamentais para quem quer ser a dianteira do processo. Nem falo da liberdade política. Falo de modernidade tecnolótica. A questão é: só em um país em que se pode pensar qualquer coisa a Microsoft sai da garagem para mudar o mundo. E um país incapaz de conviver com o Google não vai conseguir jamais criar uma Microsoft.

A China, como modelo, me parece o inferno. Junta o pior do capitalismo mais brutal com o pior do socialismo mais autoritário. É, vá lá, menos ruim do que Cuba e Coreia do Norte, que ficaram só com o autoritarismo e a miséria socialista, mas ainda é um lixo. Mas a China é a economia "do futuro". Só que, e nisso eu acho que Friedman entendeu tudo, não dá para a economia que promete pautar o século XXI pretender controlar seus cidadãos com o pior do século XX. É uma contradição insustentável no longo prazo.

Friedman é um otimista. Ele acha que o Partido Comunista Chinês perde essa queda de braço. Eu, um cético, tenho cá minhas dúvidas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A reforma sai?

Obama vai, no fim das contas, conseguir reformar o sistema público de saúde dos Estados Unidos?

Essa é a pergunta da hora depois da derrota dos democratas em Massachusets. Os democratas tinham exatos 60 votos no Senado, contando com os dois independentes que se alinharam com eles. Com a eleição de Scott Brown, eles têm 59, o que ainda é a maioria (o Senado americano tem 100 senadores), mas não uma maioria grande o suficiente para aprovar a reforma, que precisa de 60 votos, no mínimo.

Existem dois projetos de reforma, um aprovado em cada casa legislativa. A intenção dos democratas era fundir os dois projetos. O projeto já aprovado no Senado é menos amplo, e considerado pelos liberais advogados do plano como pior do que o aprovado na Câmara. A saída que alguns democratas propõem é que o projeto do Senado seja aprovado exatamente como está na Câmara e depois pequenas alterações que exijam apenas a maioria simples dos senadores (51) sejam votadas. Alguns liberais não gostam da saída, mas alguma reforma ainda lhes parece melhor do que nenhuma.

Obama precisa decidir rápido. Caso decida mesmo por forçar a aprovação do projeto do Senado na Câmara, ele não pode se dar ao luxo de perder nenhum voto. A aprovação do projeto da Câmara foi por 220 votos a 215. Só que desde então um deputado democrata se aposentou e o único deputado republicano que votou a favor do projeto já declarou que agora vota com seu partido. Ou seja: tudo mais constante, no momento está 218 a 216. Basta que mais um deputado abandone o projeto e a maioria pró-reforma da Câmara vira pó.

Essa visão, claro, parte do princípio de que não haverá nenhum acordo com algum senador republicano moderado para aprovar o projeto da Câmara ou mesmo escrever um terceiro projeto que agrade mais os conservadores americanos que se opõem à reforma no momento.

E termino com a minha humilde opinião sobre o problema, que eu ainda não dei, lembrando que falar de fora, quando você não paga a conta nem sofre os efeitos de o sistema funcionar ou não, é muito fácil: acho os dois projetos atualmente em discussão ruins, e o do Senado é menos ruim que o da Câmara. Mas se eu fosse americano eu concordaria com Obama em uma coisa: o sistema precisa ser reformado.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um ano depois, uma derrota amarga

Barack Obama deve ter acordado com um gosto amargo hoje, quarta-feira, 20 de janeiro. Há exatamente um ano ele tomava posse. Hoje ele acordou com a informação de que seu partido perdeu pela primeira vez em desde os anos 70 uma eleição para senador no Massachusets com a eleição de Scott Brown.

Obama perdeu, assim, a maioria de 60 senadores que teve pelo breve tempo entre a resolução da eleição para senador Minnesota, com a vitória do democrata Al Franken (o resultado demorou a sair porque a eleição foi muito próxima, e houve várias recontagens), e a morte de decano Ted Kennedy, um dos símbolos da política americana.

A Casa Branca investiu pesado na eleição de sua candidata para substituir Kennedy, Martha Coakley. E perdeu. É um duro golpe para Obama, especialmente porque em novembro desse ano haverá eleições de meio de mandato para a câmara dos deputados, e sua maioria lá deve diminuir sensivelmente.

Mas o grande problema agora é a tentativa de Obama de aprovar uma reforma do sistema público de saúde nos EUA. Obama precisa de 60 votos no Senado para aprovar seu projeto, evitando o que os americanos chamam de "filibuster" (algo semelhante com a obstrução feita no Congresso brasileiro pela oposição). Mas agora ele tem 59. Ou seja: precisa convencer ao menos um republicano a votar com ele. A melhor chance de consegui-lo é Olympia Snowe, senadora republicana do Maine. Mas ela exige mudanças no plano.

É uma situação política complicada. E que guarda uma questão curiosa: Ted Kennedy foi o maior defensor da reforma na política americana. O homem eleito pelos seus eleitores para substituí-lo, Brown, fez toda sua campanha dizendo que ele era o voto necessário para impedir a reforma.

Obama está em uma situação muito, muito delicada. Sua popularidade está em franco declínio. E isso tem mais que ver com o que ele não fez do que com o que ele fez ao longo do seu primeiro ano. Mas isso fica pra depois.

12 minutos. Ou: Minha experiência com a TV Brasil

Publico este texto tal como ele foi escrito na noite de ontem.

Escrevo este texto a quente. São 23h15 da noite de terça-feira. Eu estava zapeando pela TV quando cai em um programa da TV Brasil (conhecida neste blog como PTV, a TV do PT, desde que foi criada) que discutia a "mídia". Quando cai lá uma professora da USP (de onde mais?) dizia que a consciência do brasileiro é formada pelas novelas. Pois é. A professora não gosta muito disso. E o alvo do programa sobre a "mídia" era a TV Globo.

Durante os minutos seguintes, fui bombardeado com ataques à forma como a "mídia ilude os brasileiros", como as novelas só mostram pessoas ricas e brancas, como os negros só ocupam papeis secundários, "salvo raríssimas exceções". O discurso é velho, a ressalva é nova: imagino que uma novela das 8 com todo um núcleo principal feito de uma família negra imponha a realidade até a quem em geral não gosta de considerá-la fora das próprias bitolas ideológicas.

É velhíssimo também o que veio a seguir: imprecacções contra a audiência. "A audiência é uma ficção", disse um. "Onde está a assembleia em que o povo definiu do que gosta?", perguntou outra. Essa pergunta, confesso, me deixou intrigado. "Ora essa, agora até os gostos das pessoas são decididos em assembleias..." As taras autoritárias dessa gente podem descer a níveis surpreendentes.

Nós não temos o direito de gostar do que quisermos não. Uma "filósofa" propunha lá que fôssemos "ensinados" a ver TV. O povo, coitado, não sabe o que é bom pra ele. Aqueles doutos "intelectuais" da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e da ECA (Escola de Comunicação e Artes), lá da USP, é que sabem. A TV Brasil não tem audiência, essa coisa horrorosa, mas sabe do que o povo precisa. Eles estão dispostos a nos "ensinar" a ver TV.

Olhem: sendo quem sou, vocês nunca vão me ver dizer que programas que têm audiência são necessariamente bons. Audiência não garante qualidade. Só que falta de audiência também não. Eu detesto reality shows, por exemplo. Acho que são, em geral, programas de péssimo gosto e um bocado monótonos. Mas muitos deles fazem sucesso. E eu nunca vou me arvorar de dono da verdade e cair no ridículo de sugerir que quem gosta desses programas tem que aprender a ver TV. A TV Brasil, que dá traço de audiência, sugere. Pior: ela sugere assumindo ar de quem tem direito a isso justamente porque dá traço de audiência.

Mas, vocês sabem, demófoba é a direita.
Mas, vocês sabem, reacionário sou eu.

Divago. O programa seguiu atacando a "indústria cultural" que produz pensando no "lucro" e nos espectadores como "consumidores". A TV Brasil, nós sabemos, não tem essas preocupações. A gente sustenta ela mesmo, com dinheiro público, e eles não fazem questão de audiência. E, mais importante, eles não têm audiência.

Aquela primeira professora, lá do começo, reapareceu para dizer que a TV "manipula" as pessoas. E então foram exibidos dois vídeos. Um mostrava imagens de um Congresso do MST em Brasília, travestido em protesto "pelo interesse do Brasil", explicava um texto no canto do vídeo. Logo depois aparecia a inscrição: "Mas na mídia...". E então o segundo vídeo: um trecho de matéria da TV Globo (claro) que mostrava o caos no trânsito causado pelo protesto. Hum... Todo mundo entendeu, não? O preconceito da "mídia" contra o coitado do MST...

E daí que ele, de fato, tenha prejudicado o trânsito? E daí que fosse uma matéria do DF-TV, um jornal regional cujo material de trabalho são questões locais como (oh!) o trânsito? Era uma passeata do MST, "pelo interesse do Brasil", uma boa causa... Que importam as milhares de pessoas que perderam horas no trânsito? Menos tempo para elas verem e novela e mais, como disse querer a "filósofa", para pensarem nos problemas do Brasil e no movimento das formigas...

Foi então que o programa atingiu seu auge. Um sujeito de uns 30 anos, vestido com roupas típicas de "rapper" (ou, como dizem meus amigos paulistas, de "mano"), apareceu no vídeo dizendo que a "mídia" promove o consumo e que "o consumo anestesia as revoluções, você sabe né?".

Eu tinha então assistido a exatos 12 minutos do pograma, tive um colapso de riso, liguei meu computador, mudei a TV para o SBT, que passava a versão de 2003 para A Fantástica Fábrica de Chocolate, peguei um copo enorme de coca-cola gelada e escrevi esse texto.

Ainda não foi dessa vez que os professores da USP, o "mano", Franklin Martins e Tereza Cruvinel me dobraram e me ensinaram a ver TV. É melhor eu me cuidar. Nos países em que se aplicam as utopias dessa gente eu acabo com água nas canelas ou fuzilado no paredão. E agora eles já sabem como me torturar: é só me forçar a assitir a mais de 12 minutos da TV Brasil.

Posto em perspectiva, o paredão pode ser uma saída menos sofrida...

Alguém aí sabe se a Alinne Moraes já trocou de gêmeo na novela? Confesso que torço para o gêmeo sério sempre, nunca para o gêmeo irreverente.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sempre igual

Faz tempo que não cito Reinaldo Azevedo aqui. Bom, então aqui vai um trecho particularmente inspirado dele em um post de ontem, falando, claro, "deles":

O bonito desse negócio de transversalidade é isto: os iluminados se reúnem para debater a cultura, a comunicação, o meio ambiente e a rebimboca da parafuseta e chegam à conclusão de que é preciso:
- controlar os meios de comunicação;
- controlar o jornalismo;
- mudar o currículo das escolas;
- criar uma instância acima da Justiça;
- acabar com o capitalismo;
- destruir a agricultura e a pecuária…
Realizados tais propósitos, aí viria um reino de paz, justiça e igualdade.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Cinemas vazios

Por Lauro Jardim, no Radar Online:

Lula, o filme: ladeira abaixo

O terceiro fim de semana de Lula, o Filho do Brasil reforçou a trajetória de queda do filme: somente 66 000 pessoas se dispuseram a vê-lo nos cinemas (no primeiro fim de semana, fora 193 000 espectadores e, no segundo, 107 000).

No total, desde que estreou a fita de Fábio Barreto conseguiu levar 642 000 pessoas aos cinemas - Xuxa e o Mistério da Feiurinha, com uma semana a mais de exibição, já tem um público total de 770 000 pagantes.

Lula periga não chegar a 1 milhão de espectadores. Seus produtores imaginavam algo acima 5 milhões de espectadores nas projeções mais pessimistas.

Dia de Martin Luther King

Hoje é o dia de Martin Luther King, feriado nacional nos Estados Unidos. Todo ano, na terceira segunda-feira de janeiro, eu leio seu discurso mais famoso, "I have a Dream" (Eu tenho um sonho), feito em 1963. É um texto magnífico, o maior clássico retórico da segunda metade do século XX.

Leiam. Vivemos em tempos sombrios, em que voltam a tentar nos dividir por raças, agora supostamente "para ajudar". Eu compartilho do sonho de King. Eu compartilho do sonho dele de que um dia as crianças não serão julgadas pela cor da pele, em hipótese nenhuma.

A tradução é do site DHNet. O original, em inglês, pode ser encontrado aqui.
*
Eu tenho um sonho

Há cem anos passados, um grande americano, sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse momentoso decreto foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro.

Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua vivendo numa ilha isolada de pobreza, em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha a margem à margem da sociedade americana, encontrando-se no exílio em sua própria pátria. Assim, encontramo-nos aqui hoje para dramatizarmos tal consternadora condição.

Em um sentido viemos à capital de nossa nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as palavras majestosas da Constituição e da Declaração de independência, estavam assinando uma nota promissória da qual cada cidadão americano seria herdeiro. Essa nota foi uma promessa de que todos os homens teriam garantidos seus inalienáveis direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

É óbvio que ainda hoje a América não pagou tal nota promissória no que diz respeito aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar tal compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem fundos; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: “fundos insuficientes”. Nós nos recusamos aceitar a idéia , porém, de que o banco da justiça está falido. Recusamos acreditar não existirem fundos suficientes nos grandes cofres da oportunidades desta nação. Por isso aqui viemos para cobrar tal cheque – um cheque que nos será pago com as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da veemente urgência do agora. Este não é o tempo para se dedicar à luxuria da postergação, nem para se tomar a pílula tranqüilizante do gradualismo. Agora é o tempo para que se tornem reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo para que nos levantemos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é o tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é o tempo para levantar nossa nação da areia movediça da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.


Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante verão do descontentamento legítimo do Negro não passará até que ocorra o revigorante outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava apenas se desabafar, e que agora ficará contente como está, terão um rude despertar se a Nação retornar à sua vida normal como sempre. Não haverá tranqüilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações de nossa Nação até que desponte o luminoso dia da justiça.

Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No processo de ganharmos nosso lugar de direito não devemos ser culpáveis de atos irregulares. Não busquemos satisfazer a sede pela liberdade tomando da taça da amargura e do ódio. Devemos conduzir sempre nossa luta no plano elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que nosso criativo protesto degenere em violência física. Sempre e cada vez mais devemos nos erguer às alturas majestosas de enfrentar a força física com a força da alma. Esta maravilhosamente nova militância que engolfou a comunidade negra não deve nos levar a uma desconfiança de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos brancos, como evidenciado por sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está instrinsicamente unida à nossa liberdade . Não podemos caminhar sozinhos.

Á medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos avante. Não podemos retroceder. Existem aqueles que estão perguntando aos devotados aos direitos civis: “Quando vocês ficarão satisfeitos?” Não podemos ficar satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores incontáveis da brutalidade policial. Não podemos ficar satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados pela fadiga da viagem, não puder encontrar um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não podemos ficar satisfeitos enquanto a nobreza básica do Negro passa de um gueto pequeno para um maior. Não podemos jamais ficar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova York crê
não existir nada pelo qual votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e não ficaremos satisfeitos até que a justiça corra como água e a retidão também, como uma poderosa correnteza.

Não desconheço que alguns de vocês vieram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês recém saíram de diminutas celas de prisão. Alguns de vocês
vieram de áreas onde sua busca pela liberdade deixou em vocês marcas das tempestades de perseguição e fê-los tremerem pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento imerecido é redentor.

Voltem ao Mississipi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem à favelas e aos guetos de nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta
situação pode e será alterada. Não nos enpojemos no vale do desespero.

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações
do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho
que algum dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença. “Afirmamos que estas verdades são evidentes; todos os homens foram criados iguais”.

Tenho um sonho que algum dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.

Tenho um sonho que algum dia o estado do Mississipi, um estado deserto sufocado pelo calor da injustiça e opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.


Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que algum dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador atualmente pronunciam palavras de interposição e nulificação, seja transformado para uma condição onde pequenos meninos negros, e meninas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos meninos brancos, e meninas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.

Tenho um sonho, hoje.

Tenho um sonho que algum dia todo vale será exaltado, toda montanha e encosta será niveladas, o s lugares ásperos tornar-se-ão lisos, e os lugares tortuosos serão direcionados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, juntamente.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao sul. Com esta fé seremos capazes de tirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação em uma linda sinfonia harmoniosa de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, orar, juntos, lutar juntos, ir à prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que algum dia seremos livres.

Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: “Meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, de cada rincão e montanha que ressoe a liberdade”.

E se
a América for destinada a ser uma grande nação isto deve se tornar realidade. Que a liberdade ressoe destes prodigiosos planaltos de New Hampshire. Que a liberdade ressoe destas poderosas montanhas de New York. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!

Que
a liberdade ressoe dos nevados cumes das montanhas rochosas do Colorado!

Que a liberdade ressoe dos
picos curvos da Califórnia!

Não somente
isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que
a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!

Que
a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.

De
cada rincão e montanha, que a liberdade ressoe.

Quando permitirmos que a
liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia quando todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentís, protestantes e católicos, com certeza poderão dar-se as mãos e cantar nas palavras da antiga canção negra: “Liberdade afinal! Liberdade afinal! Louvado seja Deus, todo-misericordioso, estamos livres, finalmente!”

Kátia Abreu acertando como de hábito

Na seção Veja Essa, ainda na VEJA dessa semana:

"Saem a democracia, a justiça, a tolerância e o consenso e entra a velha visão esquerdista e ideológica que a humanidade enterrou sem lágrimas nas últimas décadas, depois de muito sofrimento e muita miséria."
Kátia Abreu, senadora (DEM-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, falando sobre o projeto do Programa Nacional de Direitos Humanos

Ciro vai?

Na coluna Holofote, editada por Felipe Patury, da VEJA:

Quem manda em Ciro é Lula
Todo o mundo político aposta que o socialista Ciro Gomes só manterá sua candidatura ao Palácio do Planalto se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permitir. Faltava apenas o próprio Ciro admitir isso. E foi justamente o que ele fez nos últimos dias de 2009. Confidenciou a um interlocutor que fará o que Lula quiser. Dito isso, resta saber se o presidente preferirá manter a candidatura do aliado, e assim forçar um segundo turno entre a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra, ou se apostará seu cacife em uma única rodada.

Que se enterre o que é autoritário

Carta ao Leitor da VEJA dessa semana:
*

Nesta edição, VEJA traz uma reportagem sobre um assunto que, desde o fim do ano passado, está presente no noticiário e ao qual você, leitor, talvez não tenha prestado atenção suficiente: a crise detonada pelo lançamento do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos. Sim, já estamos no terceiro programa. O primeiro foi lançado em 1996 e o segundo, em 2002, ambos no governo de Fernando Henrique Cardoso. A ideia de ter um programa desses, atuali-zado de tempos em tempos, surgiu depois que o Brasil presidiu o comitê de redação da Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Viena, em 1993, que legou uma orientação nesse sentido aos países participantes. A primeira versão, com 228 itens, propunha basicamente ações capazes de proteger índios, negros, crianças, detentos ou pessoas submetidas a trabalho forçado, entre outros grupos. Uma de suas consequências foi a criação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Seis anos depois, em 2002, o segundo programa trazia 518 metas, mais específicas e detalhadas. Incluía melhorar a vida de dependentes químicos e portadores do vírus HIV, por exemplo.

O terceiro plano, feito sob os auspícios do secretário Paulo Vannuchi e assinado pelo presidente Lula, elevou o número de ações programáticas para 523. O catatau conta com seis eixos, 25 diretrizes e 82 objetivos estratégicos. Como só quem participou de sua confecção o leu antes, as reações foram surgindo ao longo dos dias que se seguiram ao seu lançamento. Descobriu-se que foram contrabandeadas para o programa propostas estarrecedoras, inconstitucionais. Uma delas revoga a Lei da Anistia, de 1979, conquista da sociedade brasileira que permitiu o retorno ao estado de direito depois de duas décadas de regime militar. Outra contém claras ameaças à liberdade de imprensa. Uma terceira limita o papel da Justiça nos conflitos entre proprietários e invasores de terras – o que favorece estes últimos e representa um atentado contra o direito à propriedade. E por aí vai. A maneira como o programa foi elaborado está errada, evidentemente. Ninguém ouviu os reais interessados. Espera-se, agora, que o Congresso tenha a sabedoria de dividir esse calhamaço em partes a ser analisadas minuciosamente, visto que tanto aprová-lo como rejeitá-lo por inteiro renderiam grandes problemas mais à frente. Que se acate o que é direito humano, de fato, e se enterre o que não passa de proselitismo, revanchismo e tentação autoritária.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A vitória de Samuel Pinheiro Guimarães

Coluna de Demétrio Magnoli no Estadão de quinta. Dessa vez, volto depois para uma rápida discordância.

Direitos humanos recicláveis
Samuel Pinheiro Guimarães, o número 2 do Itamaraty feito secretário de Assuntos Estratégicos, renomeou os direitos humanos como "direitos humanos ocidentais" e qualificou a sua defesa como uma política que dissimula "com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das grandes potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos". O ataque frontal aos direitos humanos é ineficaz e desqualifica o agressor. Os inimigos competentes dos direitos humanos operam de outro modo, pela sua usurpação e submissão a programas ideológicos estatais. O Plano Nacional de Direitos Humanos há pouco anunciado é uma ilustração acabada dessa estratégia. Desgraçadamente, os movimentos e ONGs que falam em nome dos direitos humanos não são apenas cúmplices, mas inspiradores da ofensiva de âmbito internacional.

A política internacional de direitos humanos nasceu de fato com a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. O texto célebre inscreve-se na tradição da filosofia política das Luzes, que se organiza ao redor do indivíduo. Ele proclama direitos das pessoas, não de coletividades étnicas, sociais ou religiosas. Tais direitos circulam na esfera política, mesmo quando se referenciam no mundo do trabalho ou da cultura.
Por esse motivo, a sua defesa solicita, sempre e inevitavelmente, o confronto com o poder político que viola ou nega direitos. A Declaração de 1948 é, essencialmente, um instrumento de proteção dos indivíduos contra os Estados. Não é fortuito que seus detratores clássicos sejam os arautos das utopias totalitárias: o fascismo, o comunismo, o ultranacionalismo, o fundamentalismo religioso.

Na sua fase heroica, as ONGs engajadas na defesa dos direitos humanos figuravam na lista de desafetos dos Estados, inclusive das democracias ocidentais. Elas denunciavam implacavelmente a censura, a repressão política, as detenções ilegais e as torturas promovidas pelos regimes tirânicos, mas também as violações cometidas pelos serviços secretos das potências democráticas, a pena de morte, a discriminação oficial contra imigrantes, o preconceito racial nos sistemas judiciário e policial. Nada disso servia para a obtenção de financiamentos de governos, instituições multilaterais ou fundações filantrópicas globais. O ramo dos direitos humanos não era um bom negócio.

O giro estratégico começou há menos de duas décadas, por meio de uma reinterpretação fundamental dos direitos humanos. As ONGs inventaram a tese útil de que os direitos humanos, tal como expressos na Declaração de 1948, representam apenas direitos "de primeira geração". Eles deveriam ser complementados por direitos econômicos, "de segunda geração", e direitos culturais, "de terceira geração". A operação de linguagem gerou um oceano de direitos indefinidos, um livro vazio a ser preenchido pelos detentores do poder de preenchê-lo. Simultaneamente, propiciou a aliança e a cooperação entre as ONGs de direitos humanos e os Estados.

Sob o amplo guarda-chuva dos direitos "de segunda geração", quase todas as doutrinas políticas podem ser embrulhados no celofane abrangente dos direitos humanos. A reforma agrária promotora da agricultura camponesa converte-se num direito humano, tanto quanto a coletivização geral da terra, que é o seu oposto, segundo a vontade soberana do poder estatal de turno. O Plano de Direitos Humanos apresentado pelo governo Lula declara o "neoliberalismo", rótulo falseador usado como referência genérica às políticas de seu antecessor, como um atentado aos direitos humanos. As políticas assistenciais de distribuição de dinheiro transfiguram-se em princípios indiscutíveis de direitos humanos. Aqui ao lado, em nome dos direitos "de segunda geração", Hugo Chávez destrói meticulosamente aquilo que resta da economia produtiva venezuelana.

Os direitos "de terceira geração", por sua vez, funcionam como curingas dos tiranos e das lideranças políticas que fabricam coletividades étnicas, raciais ou religiosas. A perseguição à imprensa independente, nas ditaduras e nos regimes de caudilho, adquire a forma da proteção de direitos sociais contra o "poder midiático". A introdução de plataformas ideológicas no sistema educacional é envernizada com a cera dos direitos culturais. O mesmo pretexto propicia um discurso legitimador para a implantação de políticas de preferências étnicas ou religiosas no acesso aos serviços públicos, ao ensino superior e ao mercado de trabalho. O Plano de Direitos Humanos contém um pouco de tudo isso, refletindo a intrincada teia de acordos firmados entre o governo, os chamados movimentos sociais e redes diversas de ONGs.

A revisão do significado dos direitos humanos empreendida por iniciativa das ONGs esvaziou o sentido original da política internacional de direitos humanos. Eles deixaram de exprimir direitos dos indivíduos reais para se transfigurarem em direitos de coletividades imaginadas. O "negro" ou "afrodescendente" genérico, supostamente representado por uma organização política específica, tomou o lugar do indivíduo realmente esbulhado pela discriminação racial. O "índio" abstrato, "representado" pelo Instituto Sócio-Ambiental, sequestrou a voz do grupo indígena concreto que não tem acesso a remédios ou escolas. O Plano de Direitos Humanos contempla todas as coletividades fabricadas pela "política de identidades", inclusive as quebradeiras de coco. Ao reconhecimento oficial de cada uma dessas coletividades vitimizadas corresponde uma promessa de privilégios para seus "representantes", que são ativistas internacionais do próspero negócio dos direitos humanos.

Os direitos humanos de "segunda geração" e "terceira geração" diluíram os direitos humanos. As ONGs de direitos humanos incorporaram-se à paisagem geopolítica das instituições multilaterais e seus ativistas ingressaram numa elite pós-moderna de altos funcionários do sistema internacional. Em contrapartida, pagaram o preço de uma renúncia jamais explicitada, mas nítida e evidente, a fustigar as violações de direitos humanos praticadas pelos Estados.

A "guerra ao terror" de George W. Bush, com suas operações encobertas de transferência de presos para ditaduras cruéis, suas prisões off-shore e suas técnicas heterodoxas de interrogatório, escapou relativamente incólume do bombardeio das ONGs amestradas. A submissão do sistema judicial da Rússia de Vladimir Putin às conveniências políticas do Estado quase desapareceu dos radares dos ativistas. A vergonhosa deportação dos boxeadores cubanos por um governo brasileiro disposto a violar tratados internacionais precisos não mereceu uma denúncia no âmbito da OEA. O fechamento de emissoras de TV e a nova figura dos prisioneiros políticos na Venezuela não merecem manifestações significativas dos altos executivos de direitos humanos. A agressão recente à blogueira cubana Yoani Sánchez não gera nem mesmo uma protocolar nota de protesto das organizações que redigiram junto com Paulo Vannuchi o Plano de Direitos Humanos. De certo modo, Samuel Pinheiro Guimarães triunfou.

Discordo de Demétrio quanto ao governo Bush. Ele não escapou das críticas. Mas concordo com ele que essas críticas não tiveram nada a ver com as violações de direitos humanos (pelas quais ele merecia ser criticado), e sim tudo a ver com os preconceitos das ONGs que ele descreve com os EUA, justamente por serem o país mais facilmente associado aos direitos humanos hoje chamados "de primeira geração". Demétrio talvez não concorde, mas eu não tenho medo nenhum de dizer que são os "progressistas" e os "esquerdistas" que desmontam os direitos humanos nessa miríade onde cabe tudo, menos os verdadeiros direitos humanos, como a liberdade de expressão, que o PNDH petista ataca de forma direta.

O preconceito, a besta amoral e o politicamente correto

Um sujeito tolerante ao extremo simplesmente não tem moral pessoal. Um homem sem preconceitos é um empirista extremado, uma besta, um monstro amoral. Todos nós temos preconceitos. O preconceito também é uma realidade discursiva que, como todas as outras, é definida pelas marés de opinião: não ter alguns preconceitos corresponde a reforçar outros (e essa formulação nem é minha, tem autor mais renomado).

Publiquei o que vai acima aqui no dia 02 de janeiro, quando escrevi sobre o filme do Lula. Muita gente ficou chocada, aparentenmente não entendendo o que eu disse.

Preconceito (pré+conceito) é o conceito predeterminado. É um conceito que se tem, portanto, antes que tenha condição de determinar o objeto conceituado, se vocês conseguem acompanhar o jogo de palavras.

Preconceito não é discriminação: ele em geral a antecede, mas ela não necessariamente é decorrência dele. O preconceito é uma realidade, como disse, discursiva, conceitual; a discriminação é uma ação. E, o mais importante: não me refiria naquele caso aos preconceitos que derivam tradicionalmente em discriminação, como os preconceitos com religião, cor de pele, orientação sexual. Esses, em geral, são só falta de informação.

Eu me refiria a outro tipo de preconceito, mais banal talvez, e também mais generalizado. Vivemos em tempos nos quais somos, como eu insinuei naquele texto, convidados a testar de tudo. Só podemos falar do que conhecemos, vivemos a ditadura dos especialistas. Repito: o homem sem preconceitos, que não tem limites que lhe são naturais e antecedem à experiência, é uma besta e um monstro amoral. Tenho espasmos de horror ante a ideia de conhecer alguém assim.

Querem um exemplo bem prático e político daquela parte em que digo que não ter um preconceito é reforçar outro? Eu tenho preconceitos diante das demandas políticas de um grupo que invade propriedades privadas, como o MST. Não importa se eu concordo com eles ou não no que querem. Eu discordo de como eles querem. Quem não tem um conceito pré-determinado do MST pelos crimes que ele comete ou endossa seus crimes ou quer experimentá-los para ver se são bons. Ou acha que os fins justificam os meios, ou acha que é preciso testar todos os fins e todos os meios. Eu acho que os meios qualificam os fins.

Ou seja: ou se têm os meus preconceitos com os métodos do MST, ou se têm os preconceitos do MST com, digamos, a propriedade privada, ou se têm vontade de testar tudo, o que caracteriza o monstro empirista de que falei, que não tem nada, nenhum horizonte de experiência passada ou lógica futura, a lhe orientar a ação. É um habitante de um tipo muito particular de presente enterno.

Na verdade, até ter preconceitos com quem admite os próprios preconceitos é um preconceito, entendem?

Não, meus caros, não é preciso testar antes para emitir opinião. Eu não preciso testar ou conhecer a utopia dos invasores de terra para ter ojeriza a ela. E não tentem me patrulhar. A patrulha politicamente correta também é uma realidade discursiva cheia de preconceitos. E eu a enxoto pra bem longe de mim.

Eu, vocês, colunas

Caros,

Estou sem internet de novo, meu acesso tem acontecido esporadicamente. Sinto muito.

Quanto às colunas das últimas semanas, que não foram publicadas aqui: eu as enviei para que uma amiga as publicasse, mas o blogger está com problemas e as postagens não foram ao ar. Estou sem os textos comigo, mas assim que tiver uma chance e tempo para rever as configurações do blog vou publicá-las.

Recebi um bocado de críticas sobre coisas que escrevi aqui, e estou no momento me dedicando a respondê-las.

Tragédias naturais e tragédias humanas

Terremotos de intensidade 7,0 na escala Richter já aconteceram antes. O que fez o terremoto ocorrido no Haiti na terça-feira tão terrível é a história do Haiti. A natureza é, em geral, um bocado madrasta. Mas tragédias naturais matam na proporção das tragédias humanas. O Haiti vivia em um meio caos há muito, muito tempo. O terremoto tornou o caos completo.

A última tragédia humana do Haiti chama-se Jean-Bertrand Aristide. Seu último período na presidência do país durou de 2001 a 2004. O homem é insano, e, até onde sei, corrupto também. Vive em um confortável exílio na África do Sul. Sua última medida antes de abandonar seu país foi extinguir as forças armadas, o que valeu como um empurrão mais para baixo no abismo.

Desde 2004 há uma força da ONU, MINUSTAH, liderada por tropas brasileiras, que realiza funções policiais no Haiti na tentativa de manter um mínimo de ordem. O que se faz lá é tentar construir, com quase nada, um Estado. Não tem funcionado muito bem. As tropas conseguem manter a paz executando papel de polícia, mas não conseguem passar a instituições haitianas o controle do país.

Aqui no Brasil a ação da ONU sempre foi muito criticada. As esquerdas gostavam de acusar o "imperialismo" da ação. Não sei de que Haiti essa gente falava: embora eu tenha restrições ao Exército brasileiro exercer em um pequeno país do Caribe uma função de que precisamos desesperadamente aqui dentro, o fato é que sem ajuda internacional o Haiti será apenas um experimento vivo do que acontece com sociedades humanas abandonadas sem quem as organize. A miséria e a violência em que o país vivia antes do terremoto dão uma medida do que seria. E, vale dizer, bem ou mal as tropas brasileiras têm cumprido com zelo admirável a função que lhes foi designada.

A tragédia natural dessa semana só teve as proporções que teve porque antes dela houve uma sucessão de tragédias humanas. E agora resta tentar salvar o que há para salvar. O mundo está, felizmente, bastante atento à tragédia. Os EUA fizeram o que sabem fazer melhor que ninguém: mobilizaram seus recursos para ajudar. Muita gente, inclusive gente de dentro do Itamaraty, não gostou de ver a "potência imperialista" tomar a dianteira. Lembrando uma coluna minha ainda no ano passado, pergunto quem o faria que não os EUA.

O Haiti precisa desesperadamente de ajuda em meio a uma tragédia terrível e ao caos. Mas não se enganem: ajudar em momentos de tragédia natural é importante, mas as tragédias naturais são tão mais devastadoras quanto mais terríveis forem as tragédias humanas.

Eu não sei o que se pode fazer pela pobre gente do Haiti. E temo que, ao contrário do que esperam os otimistas, a ONU saiba menos ainda. O único paralelo que consigo fazer é com a Somália, só que sem o extremismo islâmico e com sucessivas tragédias naturais.

Vão lá ver o que a ONU (não) fez pela Somália, e vocês vão entender meus temores.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Aniversário e superpoderes

Recebi as muitas mensagens desejando feliz aniversário. Agradeço, enternecido. A lhaneza de vocês é sempre encantadora.

Nunca gostei de aniversários. Confesso me irritar com o protocolo social que eles exigem. Não nasci para festas...

Hoje, durante uma das comemorações, estava à beira da piscina vendo meus primos, crianças ainda, brincarem. Não havia poderes que eles não tivessem. "Eu acertei você com meu raio laser mortal!" "Eu tenho uma capa invisível que me proteje do seu raio!". E um acata o poder do outro, sem maiores discussões.

Confesso que me vi tomado por pensamentos pretensiosos, grandiosos, por um desejo pela eloquência para explicar as conclusões filósoficas que tirei dali. Sou, entretanto, excessivamente crítico de mim mesmo para fazer poesia daquela cena. O homem barroco que vive em minha alma tem noção de si o bastante para não adotar aquela gravidade que às vezes nos acomete aos jovens, senhores do mundo que somos.

Mas não posso deixar de pensar que, tanto poder assim, nunca mais. Quanto mais controle aqueles meus primos tiverem sobre a própria vida, quanto mais senhores de si se tornarem, mais vulneráveis vão ser. Eles nem imaginam e eu só recentemente me dei conta de que vivemos tanto para podermos, ao fim, sermos frágeis como crianças de cinco anos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Repetições

Publiquei isto aqui em 2007, em um post chamado "A Guerra à Imprensa 5: Para não esquecer". Publico de novo:

- O fascismo começa cassando o humor;
- O fascismo começa cassando a crítica;
- O fascismo começa cassando a individualidade;
- O fascismo começa cassando a inteligência;
- O fascismo começa cassando a imprensa livre;
- O fascismo começa em nome das maiorias;
- O fascismo chega ao ponto de pendurar de cabeça para baixo e surrar;
- O fascismo termina pendurado de cabeça para baixo, surrado.
É questão de tempo. E de haver quem resista

A democracia sitiada

O petismo é, eu defendo há algum tempo, a força política que mais ameaça a democracia brasileira. Sucessivas vezes nos últimos sete anos a cidadela das instituições e da democracia foi cercada pelo assanhamento autoritário do petismo. Resistimos a todas as investidas diretas, mas a cada nova investida o debate se tornava um pouco mais bárbaro, um pouco mais estúpido, e o estado de direito e a democracia se enfraqueciam.

Eles atacaram a liberdade de imprensa sucessivas vezes: tentaram crian o Conselho Federal de Jornalismo para censurar. Quando não conseguiram, partiram para a cooptação e a criação da TV pública. Em 2006, partiram para a truculência contra jornalistas "inimigos" (lembram-se da ação covarde da Polícia Federam contra repórteres da Veja em 2006?). Depois tentaram usar a classificação indicativa para pôr freios nas redes de TV (a Globo é a que importa).

Todas as vezes eles fracassaram. Bem ou mal, alguns veículos da imprensa e alguns jornalistas continuam a exercitar sua liberdade.

E aí vem eles de novo, agora com este Programa Nacional de Direitos Humanos. Há muitas coisas ali que são um atentado à Constituição. Lá estão eles de novo tentando colocar um freio na liberdade de imprensa.

Eu grito agora, como gritei ao longo de todo esse governo: NÃO!

Entramos no oitavo ano de cerco à cidadela da democracia. Com mais um ataque. Vamos lá, pegar nas armas democráticas - a liberdade de expressão, a oposição institucionalizada no Congresso - para resistir mais uma vez.

Eu só tenho medo, muito medo, de que se tivermos mais quatro anos de petismo a cidadela não resista.

As informações sobre a tal Programa podem ser encontradas na matéria de ontem do Jornal da Globo sobre o assunto, aqui.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O conservador e o poste branco

Escrevendo o post anterior, enquanto falava em preconceito, me lembrei de Ortodoxia, de Chesterton.

O motivo? Aquele é o tipo da coisa que faz com que me chamem "conservador". Pois é. Eu sou mesmo um conservador.

E sabem o que é mais genial? É que, Chesterton demonstrou em uma passagem fabulosa do seu livro, o conservador é adepto da continuidade e, por isso mesmo, da revolução contínua. O exemplo dele para provar isso é o clássico do poste branco: se você quer o poste sempre branco, será preciso mantê-lo limpo e pintá-lo continuamente de branco. Ou ele vai enegrecer com as chuvas. "Se você quer o velho poste branco, precisa ter um novo poste branco", é o aforismo.

Sim, eu sou um conservador. Eu quero o poste sempre branco. Por isso vou sempre pintá-lo de branco. "Progressita" é querer dar a ele novas cores na suposição de que o branco não basta; de que nem todo mundo gosta de branco. Só que não existe cor com que todo mundo concorde. Então abandona-se o critério da experiência, mas não existe critério para substituí-lo além do arbítrio.

Essa é, creiam-me, uma leitura da História. Uma leitura, claro, conservadora.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Lula e meu preconceito

"Preconceito".

Essa palavra resume as críticas que recebi pelo post de ontem em que ironizei o filme Lula - O Filho do Brasil. O tom geral era: "como é que você pode criticar algo que não viu?".

Pois é. Não vi, e não gostei. Há muitos livros que não li e dos quais não gosto, há muitos filmes que não vi e dos quais não gosto. A crítica de arte existe também pra isso. Mas não só: eu acho, sim, que não vou gostar do filme. E esse meu "preconceito", acho, nada tem de vergonhoso. Vou ainda mais longe: eu defendo o direito que todos nós temos a ter preconceitos. Se eu já defendi, vejam só, até o imperialismo americano...

Um sujeito tolerante ao extremo simplesmente não tem moral pessoal. Um homem sem preconceitos é um empirista extremado, uma besta, um monstro amoral. Todos nós temos preconceitos. O preconceito também é uma realidade discursiva que, como todas as outras, é definida pelas marés de opinião: não ter alguns preconceitos corresponde a reforçar outros (e essa formulação nem é minha, tem autor mais renomado).

Tenho, sim, juízos pré-determinados pela experiência - até mesmo pela experiência alheia, quando quem emite opinião é alguém que eu admire e respeite. Não gosto de um filme que conta a história de um presidente em exercício antes de mais nada porque desprezo profundamente a arte engajada. Acreditem: tenho muito pouca simpatia pela arte política do contra. Arte política a favor, então...

Um filme que contasse os defeitos e os erros do presidente em exercício não seria cogitado; se fosse, não teria patrocinadores. Lula - O filho do Brasil só tem dinheiro privado, mas tem o dinheiro privado de empresas gigantes com grandes interesses no governo. Ora, se um filme sobre determinado personagem só tem uma visão aceitável - até em Gandhi o filme icônico com Ben Kingsley encontrou defeitos -, esse filme é propaganda oficial. E, portanto, é má arte.

Eu ainda não vi o filme. Mas não gosto dele porque ele foi influenciado por interesses políticos, por figuras políticas e pelo calendário eleitoral.

Perguntam-me, por fim, se acho que Lula não mereceria um filme, dada sua história "bonita". Olhem: eu conheço pedaços da história de Lula que não são nada edificantes. Sua relação com a ditadura e a visão que gente como Golbery do Couto e Silva tinha dele certamente não abonam seu mito.

Lula mereceria, sim, um filme. É um personagem formidável. Mas o Lula real, com sua história, sim, de superação absurda, mas também de um pragmatismo amoral assombroso. Será que algum dia vamos contar a história de Lula sem esconder seu egocentrismo, por exemplo?

Ou melhor ainda: será que algum dia vamos fazer um filme sobre Lula em que José Dirceu seja um personagem, e não uma ausência?

Ainda os filmes

Cenas inesquecíveis de alguns dos filmes listados abaixo. Em alguns casos, são excelentes pelas atuações oferecidas, em outros pela direção precisa:

Antes do pôr-do-sol
Julie Delpy imitando Nina Simone, e o sorriso do Ethan Hawke nessa hora.

Casa de areia e névoa
A cena da invasão, com o embate entre Jennifer Connelly e Ben Kingsley.

Closer
A cena final, com a Natalie Portman andando em câmera lenta ao som de "The blower's daughter".

Filhos da Esperança
1- A cena no carro que termina com a morte da personagem da Julianne Moore
2- A cena em que a mulher com o bebê faz parar o tiroteio

O Labirinto do Fauno
A cena da morte... bom, qualquer um que assista ao filme sabe à morte de quem me refiro.

Plano Perfeito
A cena da conversa entre Clive Owen e Jodie Foster no banco.

Sobre meninos e lobos
Cena da conversa final entre Laura Linney e Sean Penn.

X-men 2
A fuga do Magneto da prisão.

Voo 93
Cena em que todos os personagens rezam simultaneamente.

Meus melhores filmes

Embora pelo calendário gregoriano a década vá do ano 1 ao ano 0 (2001 a 2010, por exemplo), virou moda dizer que a década acabou em 2009. Vá lá. 1930 é década de 30, não de 20, no senso comum.

Enfim, me peguei pensando em quais seriam os meus melhores filmes da década. Resolvi elaborar uma lista. Sou incapaz de colocá-los em alguma ordem de preferência, portanto vão em ordem alfabética todos de que lembrei. Em negrito, também sem ordem de preferência, vão meus 10 preferidos. Toda lista dessas é arbitrária e profundamente pessoal, mas meus filmes da "década" que vai de 2000 a 2009 são:

Antes do pôr-do-sol
Apenas uma vez
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Bourne (a trilogia)
Casa de Areia e Névoa
Cavaleiro das Trevas
Cidade de Deus

Closer
A Criança
Dogville
O Grande Truque
Filhos da Esperança
Os Incríveis
Invasões Bárbaras
O Labirinto do Fauno
Os Outros
Match Point
Pecados Íntimos
Perfume
O Plano Perfeito
Ratatouille
Sangue Negro
O Segredo de Vera Drake
O Senhor dos Aneis (a trilogia, que considero um filme só)
Sobre Meninos e Lobos
Traffic
Voo 93
X-Men 2

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Uma visão original

Que eu admiro profundamente Demétrio Magnoli, todos vocês estão cansados de saber. Publico aqui com enorme frequência seus textos.

O texto que segue abaixo foi publicado no Estadão no dia 24 de dezembro. Faço questão de ressaltar sua importância: é a leitura mais original que li sobre a política externa do governo Lula até hoje, e é uma leitura muito interessante.

Leiam com atenção, é um texto fundamental.

O inimigo americano

Não é falsa, mas gera pouca luz a tese predominante sobre as motivações originais da política externa do governo Lula. Essa tese assegura que a política externa inaugurada na primeira posse de Lula foi concebida como uma compensação "de esquerda" à política econômica ortodoxa capitaneada por Antonio Palocci e Henrique Meirelles.

As coisas são mais complicadas. Numa ponta, a substituição de Palocci por Guido Mantega introduziu uma ambivalência na política econômica, que agora combina um núcleo ortodoxo com iniciativas orientadas pelo programa do capitalismo de Estado. Na outra, a política externa sofreu uma inflexão sutil, que acentua suas inclinações antiamericanas. A crise em Honduras, a visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e a aprovação parlamentar do ingresso da Venezuela no Mercosul delineiam os contornos de um novo cenário.

Na montagem de seu primeiro governo, Lula entregou nove décimos da política econômica aos liberais ortodoxos, deixando apenas o feudo do BNDES ao grupo nacionalista ligado a Carlos Lessa, que teve vida curta. A política externa, em contraste, foi dividida equitativamente entre os ultranacionalistas, representados pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e a corrente majoritária petista inspirada pelo castrismo e personificada no assessor presidencial Marco Aurélio Garcia. O ministro Celso Amorim, um mestre da maleabilidade política, da dissimulação e do equívoco, ficou encarregado de administrar a coalizão de interesses, que só é estranha na superfície.

A ponte entre as visões de mundo dos dois grupos é constituída pelo antiamericanismo. A esquerda bafejada pelo castrismo norteia-se por uma caricatura da teoria do imperialismo que substitui o sistema de relações da economia mundial pelo "império americano". Os ultranacionalistas, cujas referências históricas formam um panteão que conecta Getúlio Vargas a Ernesto Geisel num mesmo "projeto nacional", encaram os EUA como a fonte principal dos valores odiosos de democracia política e liberdade econômica. Uma política externa consistente, mesmo se abominável, pode emanar de tal coalizão.

Lula, hoje todos sabem, não é uma rainha da Inglaterra. Ele arquitetou seu governo como um caleidoscópio de grupos de interesses, mas nunca renunciou ao exercício do comando efetivo. Amorim qualificou-o como o "Nosso Guia", lançando mão de um panegírico ridículo para produzir uma asserção verdadeira. O presidente, um provinciano incorrigível, jamais nutriu interesse pela política internacional, interpretando a política externa essencialmente como um instrumento para a edificação de sua imagem de estadista. No primeiro mandato, com essa finalidade, o "guia" definiu como meta prioritária a ascensão do Brasil à condição de membro permanente do Conselho de Segurança (CS) da ONU.

Lula cultivou uma relação pessoal com George W. Bush e o Brasil atendeu a um pedido expresso da Casa Branca para liderar a missão da ONU no Haiti, oferecendo uma solução à crise aberta por um gesto aventureiro dos neoconservadores americanos. O Itamaraty cuidou de amenizar a crítica brasileira à geopolítica de Bush no Oriente Médio e de não fazer nenhuma menção significativa aos escândalos de direitos humanos em Abu Ghraib e Guantánamo. O presidente e o ministro Amorim alimentavam a esperança de retribuição, na forma do apoio de Washington ao ingresso definitivo do País no CS. Mas, previsivelmente, os EUA decidiram não imolar sua política para a ONU no altar da obsessão do Brasil.

No segundo mandato, em virtude do fracasso daquela pleiteação, Lula afrouxou as rédeas que cerceavam o impulso antiamericanista da coalizão de política externa. A virulência desse impulso não diminuiu, mas cresceu, com a troca de comando na Casa Branca. O aparente paradoxo decorre de um temor fundamentado: enquanto as diretrizes de Bush serviam como contraponto ideal para as manifestações de apreço do Brasil a tiranos de diversos matizes, as de Obama tendem a restaurar a credibilidade dos valores políticos defendidos pelos EUA.

A alardeada "química pessoal" entre Lula e Bush deu lugar a uma crescente hostilidade retórica contra os EUA, expressa no tom arrogante das críticas à cessão do uso das bases militares colombianas, e a gestos antes impensáveis: a conversão da embaixada hondurenha em tribuna para Manuel Zelaya, o apoio explícito à duvidosa reeleição de Ahmadinejad e a proclamação de confiança no suposto caráter pacífico do programa nuclear iraniano. Nesse curso, pouco antes da visita de Arturo Valenzuela, novo secretário-assistente para as Américas, Marco Aurélio Garcia manifestou publicamente a "decepção" brasileira com a política de Obama para a América Latina - uma iniciativa que desafia as convenções da diplomacia entre países amigos.

O ato mais recente na escalada triunfante do antiamericanismo foi a admissão pelo Senado do ingresso da Venezuela no Mercosul, uma decisão de amplas repercussões, derivada de intensa pressão do Executivo sobre a sua base parlamentar. A presença de Hugo Chávez implicará a "morte" do Mercosul original, como anunciou certa vez o próprio venezuelano, e sua conversão numa plataforma de denúncia permanente do "império". Não é, obviamente, um cenário ideal para a parceria entre EUA e Brasil com a qual contava Obama na hora em que anunciou as grandes linhas de sua política latino-americana.

Política externa é a expressão internacional dos valores e dos interesses da sociedade nacional. Não é a esfera adequada para a veiculação de doutrinas partidárias ou de correntes ideológicas minoritárias. É o campo da unidade, não da confrontação interna. No primeiro mandato de Lula, a política externa brasileira oscilou no interior dos limites de uma tradição. No segundo, ela viola essa tradição, transformando-se aos poucos num pátio de folguedos de ideólogos irresponsáveis.

Vai ser um estouro. Segurem suas carteiras.

Muita gente mandou e-mails perguntando se já assisti ao filme sobre a vida de Lula, ou se vou. Não vi ainda, mas vou, claro.

Principalmente para conseguir ideias para o roteiro da continuação, que já tem título: Lulinha - O neto do Brasil.

Vai ser a história do sucesso de um rapaz que em quatro anos passa de monitor de zoológico a milionário. Mas não aquela bobajada estadounidense de sucesso individual, self-made man, aquelas histórias de superação pessoal tão típicas do império ianque.

Nããããão. Vai ser uma história genuinamente brasileira: o sucesso com consequência do governo certo, do Estado atuando certo, das políticas de desenvolvimento corretas. Um indíviduo obtém sucesso porque o país, esse ente mítico chamado "Brasil", o ajuda.

Só o Brasil tem jabuticaba.
Só o Brasil tem a maior pororoca do mundo.
Só o Brasil é pentacampeão do mundo de futebol.
Só o Brasil se regozija de ter o state-made man.

Mudança do novo ano

A partir deste 1º de janeiro, este blog adota, contra a minha preferência, a reforma ortográfica. Se vai ter que acontecer, que seja.

Não tenho ainda um Word adaptado às novas regras. Vou tentar garantir que não haja nenhum erro, mas por algum tempo isso vai exigir uma correção mais apurada dos textos do que o normal, e eu ainda não estou acostumado às novas regras. Por favor, tenham paciência.

Feliz ano novo a todos nós.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010

Faço todo ano, e não será diferente dessa vez.

Encerro 2009 com um trecho de Carlos Drummond de Andrade, que além de bom poeta era ótimo cronista:

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que, daqui para diante, vai ser diferente.

Feliz ano novo.

Crise militar

Hoje é 31 de dezembro, dia que não recomenda assuntos pesados. Deixo, portanto, para discutir a questão a fundo quando voltar da minha viagem. Mas prestem atenção: o decreto que criou a tal Comissão da Verdade e que culminou com uma reação dos chefes das Forças Armadas é um caso seríssimo de atentado institucional. E não dos militares, mas de alguns gênios do governo petista que resolveram rever a lei da Anistia na canetada e para só um dos lados.

Estamos diante de uma crise militar seríssima. Relaxem, os profetas do esquerdismo bocó: nenhum general vai pensar em golpe. Quem periga violar a ordem constitucional são os patéticos ministros do governo Lula que resolveram se arvorar de donos da "Verdade".

Falamos nisso depois de terminadas as festas.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Felicidade

Ontem, no fim do capítulo da novela Viver a Vida, da Globo, apareceu um daqueles depoimentos em que o sujeito conta as próprias desgraças e dá seu exemplo edificante. Vá lá. Mas o sujeito, um deficiente físico, terminou com um "Nós não temos o direito de sermos infelizes. Nós temos o dever de ser felizes".

Li Admirável Mundo Novo, a distopia futurista de Aldous Huxley, aos 14 anos. Deveria lê-lo de novo. Há uma passagem, fabulosa, em que Lenina, uma das personagens, diz:

"- Sim, agora todos são felizes - tinham ouvido essas palavras repetidas cento e cinqüenta vezes por noite, durante doze anos".

As crianças do mundo de Huxley eram condicionadas desde antes do nascimento. Mas essa lição - "agora todos são felizes" - era repetida a todas por doze anos. E a droga "civilizada" (o "soma") era para espantar a infelicidade, os tormentos, qualquer tipo de melancolia individual. Há uma passagem particularmente poética em que o narrador comenta casualmente que o "soma" e as luzes da cidade impediam que se vissem as estrelas. Porque as estrelas, claro, são um bocado inquietantes.

Ofereço meus respeitos ao senhor que apareceu na TV ontem. Mas ele que não me venha dizer que a infelicidade não é um direito, ou que a felicidade é um dever. Como Huxley entendeu magnificamente em seu livro, nada é mais humano do que o silêncio melancólico e a inquietude que pode ser infelicidade. Tomem-nos isso, e nos tornamos seres horrendamente... sociais.

Nossas maiores tragédias decorrem de sermos indivíduos? Acreditem: nossas maravilhas também vêm daí. John, o Selvagem do livro de Huxley, é o único àquela altura que lera Shakespeare (há na verdade, um outro personagem, o mais curioso do livro, que também o leu, mas isso fica para outra hora), banido daquela civilização monstruosa. E isso faz dele tão trágico quanto belo. E os outros personagens, inumanos também porque condicionados à felicidade, se apequenam e se amedrontam terrivelmente ante a essa beleza e a essa tragédia tão humanas.

P.S.: Para quem não sabe, o título Admirável Mundo Novo vem de versos do próprio Shakespeare em A tempestade:

O wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is!
O brave new world,
That has such people in't

Coluna de sábado: Em defesa do imperialismo americano

Esta coluna deveria ter sido publicada no último sábado aqui, mas não consegui ter acesso ao blog. A data dela é, portanto, 26/12.

No fim de janeiro, em minha última coluna, escrevi sobre o discurso de posse de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. Intitulei aquele texto de “Olá, iniludível”. “Iniludível” é o adjetivo que caracteriza aquilo que não se pode iludir. A saudação é referência a Bandeira, que a usou em um texto para se referir à morte. Um amigo perguntou se “eu” era o substantivo implícito do adjetivo. Não, não era. Ao dar este título ao meu texto, eu pretendia que “iniludível” fosse simplesmente a realidade, o fato concreto que demolia ilusões despertadas por sentimentos que eu desprezo ante a eleição de Obama.

Aquele discurso em que Obama descia do pedestal e entrava no terreno real e pantanoso em que ele teria que governar foi só um discurso. O presidente, habilidoso com as palavras, carismático, ainda tentou manter a mística por um tempo. Foi forçado a aterrissar pela realidade política de seu país, que não tolera demiurgos ou candidatos à unanimidade. Como eu disse que seria, como disseram que seria muitos analistas que não caíram na “obamania”.

Ouvi e li muitas críticas a Obama ao longo do ano. Concordo com poucas. Como eu não esperava dele que salvasse o mundo e os EUA, até porque rejeito a categoria “salvação” em política, não houve muito espaço para decepção. Tenho, ainda assim, uma crítica de fundo ao seu primeiro ano. Uma crítica, entretanto, que vai contra tudo o que se critica nele. Em certo sentido, meu problema com Obama até aqui é a razão porque ele é mais elogiado, a razão porque recebeu um Nobel da Paz que absolutamente não merecia.

Em sua política externa, Obama pratica o que chamo de “política da genuflexão voluntária”. Obama ajoelha-se perante o mundo e pede desculpas em nome dos Estados Unidos. Ele se curva metaforicamente por meio de seus discursos à metafísica antiamericana predominante. Ele está sempre agindo como se os EUA devessem ao mundo desculpas por serem um império.

Não me agrada assistir ao espetáculo da potência que assume a própria decadência como dado e acha muito justo decair. Posso conceder que um mundo em que o imperialismo americano seja forte pode ser um mundo perigoso e assustador. Mas tenho infinitamente mais medo de um mundo em que o imperialismo americano seja fraco: qual a alternativa real a ele?

O poder, diz um velhíssimo adágio, abomina o vácuo. Na falta do poder americano, algum outro se levantaria. Qual? A China, com sua mistura abominável do pior do capitalismo mais selvagem com o pior do socialismo mais tirano? A Rússia, com seu neo-czarismo e sua elite corrupta, sempre pronta a silenciar adversários com mortes brutais?

O imperialismo americano tem lá seu lado hipócrita? Claro que sim. Mas a sua face, digamos, “virtuosa” é a face democrática, liberal, que avança uma agenda que, avesso ao relativismo multiculturalista que sou, considero que avança a civilização. Qual é, afinal, pergunto aos fanáticos da decadência americana, o grande crime pelo qual Obama tem que se desculpar? A hipocrisia do governo que defende a democracia e mantém ótimas relações com a monarquia saudita? Seria mesmo melhor um mundo em que às ótimas relações com o absolutismo horrendo da Arábia Saudita não exista um ideal hegemônico democrático a contrapor? Um mundo em que o idealismo interesseiro e interessado dos Estados Unidos seja substituído pelo pragmatismo interesseiro e interessado da China será um mundo melhor?

Um mundo sem imperialismos e imperialistas seria, esse sim, melhor? Sinto dizer, não trabalho com categorias do impossível. Como insinuou aquele amigo, não sou fácil de iludir. Por temperamento e dever de ofício aprendi a desconfiar das utopias que ignoram o mundo e o homem como realmente são. Quem se propõe a reformar a humanidade ao invés de entendê-la está a um passo da insensível tirania das idéias que matou milhões no século passado em totalitarismos dos mais variados tipos.

Não quero as desculpas de Obama. Eu não quero que ele se desculpe por seu país ter deixado cadáveres na Normandia fertilizando o solo da democracia, ou por ter mantido e vencido a Guerra Fria, ou por ter sido a pátria máxima do modelo econômico que nos deu o antibiótico, o sistema de tratamento de esgoto e a coca-cola. Mas tampouco eu quero que ele se desculpe por seu país estar lutando guerras no Iraque e no Afeganistão. E nem preciso que tentem me convencer que os EUA não estão lá para promover a democracia, mas apenas para promover seus interesses e sua segurança. E isso não muda em nada o fato de que os “invasores” americanos estão tentando construir Estados tão viáveis e democráticos quanto possível nos contextos difíceis dos dois países.

Aos anti-americanos indignados com as mortes de iraquianos e afegãos, que são mesmo lamentáveis e terríveis: por que eles poderiam morrer para a manutenção das ditaduras de Saddam Hussein e do Talibã, mas não para que se tentasse instituir algum tipo de democracia?

E esse é o corolário desse texto: Obama não tem que se ajoelhar. Não só não tem que se ajoelhar pelas qualidades americanas (que é o que esperam muitos anti-americanos), como não tem que se ajoelhar pelos defeitos do seu imperialismo: os defeitos das alternativas são muito piores. A potência que deixar de acreditar em si mesma não será potência por muito mais tempo e, no caso dos EUA, já terá deixado de ser potência na arena que mais interessa: a das idéias.

Problemas técnicos

Caros,

Escrevi muitas coisas nos últimos dias, mas não tenho conseguido acessar o blog por problemas técnicos do lugar onde estou passando férias. Vou tentar publicar aqui o que já está escrito.

Desculpem o transtorno.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Uma saudação de Natal

No Natal de 1889, o primeiro do Brasil como República, o poeta americano Walt Whitman dedicou-nos um texto chamado Uma Saudação de Natal: De uma Constelação do Norte a uma do Sul, 1889-90. Whitman escreveu muitos textos cheios de fé na democracia, e esse é um deles. Há nele também sempre uma crença um bocado americana no futuro.

Confesso sentir uma certa saudade do que o poeta previu para o Brasil que nascia. Acho que a "lição" de que ele fala nós ainda temos que aprender. Com freqüência tenho a sensação de que o Brasil segue tendo fé no futuro, mas ainda não aprendeu direito a ter fé na democracia.

O texto, com tradução, segue abaixo.

WELCOME, Brazilian brother--thy ample place is ready; A loving hand--a smile from the North--a sunny instant hail! (Let the future care for itself, where it reveals its troubles, impedimentas, Ours, ours, the present throe, the democratic aim, the acceptance and the faith;) To thee today our reaching arm, our turning neck--to thee from us the expectant eye, Thou cluster free! thou brilliant lustrous one! thou, learning well The true lesson of a nation's light in the sky, (More shining than the Cross, more than the Crown,) The height to be superb humanity.

Tradução:
BEM-VINDO irmão brasileiro! Abriu-se teu amplo espaço,
Oferecemos a mão amiga, um sorriso vindo do Norte, uma saudação brilhante.
(Deixe o futuro falar por si, revelando suas dificuldades, sua bagagem,
É nossa, nossa a atual vibração, a busca da democracia, a aprovação e a fé)
A ti estendemos nossos braços, volvemos nossos pensamentos,
A ti dirigimos nosso olhar esperançoso,
Tu te unistes aos livres, Tu passastes a ter brilho próprio,
Tu aprendestes bem a verdadeira lição com as nações que brilham nos céus, (Brilham mais que a Cruz e a Coroa),
Vamos chegar ao topo de toda a humanidade.

Famílias, intimidades e escolhas. Ou: Um texto de Natal

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


É Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade.

Há algo fascinante nas famílias. A despeito das divergências, das diferenças e das distâncias, seus membros se pertencem. Mais: eles têm consciência desse pertencimento. Não me refiro aos laços de sangue, que não são, nem de longe, o mais importante. Refiro-me à narrativa comum, àquela história compartilhada que é o verdadeiro "sangue" que une intimidades diversas. Alguém já disse que existe aí uma linguagem comum: a fala, as pausas, as piadas, as ironias, as reclamações, os jogos, as sinceridades, os discursos, as lágrimas - tudo isso muito particular, muito próprio, e profundamente revelador.

A nossa intimidade é o que importa. A nossa trama familiar é o que define as opções a partir das quais escolheremos.

E dizer isso é fazer também uma declaração política. Eu sou o que sou e penso o que penso porque só consigo pensar em governos que me deixem ler Drummond e viver com a minha família a minha intimidade em paz. Já disse outro: governos devem existir para que possamos assistir ao crepúsculo em paz. Inclusive ao nosso próprio crepúsculo, inevitável como aquele outro.

A vulgaridade passa. O que fica, ao fim e ao cabo, é apenas o que "de teu queixo fica no queixo de tua filha". Essa é a grande maravilha humana. Nossos vivos e nossos mortos.

Fica para outro texto, outro Natal talvez, explicar porque esse texto é também uma defesa radical do individualismo e das escolhas pessoais.

Um feliz Natal a todos.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Férias

Estou de férias. Neste momento hospedado em um hotel em uma pequena cidade perdida no interior de Minas Gerais, a meio caminho de uma longuíssima viagem de carro. Sinto que eu tenha sumido de novo. Vou tentar atualizar o blog sempre que possível, prometo.

Serão longas férias, até por volta do dia 05 de janeiro estarei fora da minha base habitual. Mas teremos colunas, e vou tentar passar por aqui. Vou tentar manter o twitter atualizado também, passem por lá.

Vemo-nos a qualquer momento. Que tenhamos todos boas festas.